sexta-feira, 23 de abril de 2010

Geladeiras conversam
Meu bem trouxe a carne no jornal o horóscopo de ontem
Me passe o sal?
No rádio, os rouxinóis
Alguém atenda o telefone
Pegue o troco em bala depressa mulher

É hora de ir para casa, o trem sacoleja dentro do estômago
A porta, a mesa, o carimbo, o chip, o chefe
Beijo-lhe a boca, é meio dia, é hora de dormir,
Mas a tampa da panela não abre, 2% na Bolsa
Rouxinóis sobrevoam a casa, o céu de verdade
Algo entra, apesar dos muros
E vou erguendo impedimentos
Não há delegacia para esse crime
O preço do contra?
Alguém atenda o telefone
Quem vai trazer a bandeja?
A boca do chefe tem um sorriso grande
Hora de dormir
Sinal da cruz, amém
O chefe de olhos fechados, à mesa, boca aberta,
o reflexo de seu maxilar sobre a superfície prata,
a língua de fora.
Pegue o troco em bile depressa mulher
A mesa e as paredes são frias, a carne tem cheiro de fogo
Me passe o sal?
Garfo, goela, gordura.
Não sei, não vi, não falo.

4 comentários:

Geca disse...

Vc se dá muito melhor com os versos do que imagina. Talvez esteja descobrindo -ou construindo- isso, não sei. Esse foi um dos seus melhores, julgo eu.

Geca disse...

A máquina do cotidiano
Sobre viver, se diz.
Os passos mecânicos, despercebidos, aparentemente inevitáveis.
Ser?
Sobreviver, se diz.
Os passos mancos, doídos.
Alguém brinca de fantoches na sala de visitas.
João morreu ontem de cirrose e Luíza escreveu qualquer poema sentimental sobre os olhares perdidos das pessoas no velório.
É que se morre, por um motivo ou outro, disse Geremias olhando o rosto pálido de João.
Todos concordaram meio aliviados, menos a ex esposa: João caçou a morte dele. Inda bem que eu saí a tempo de não me afundar junto dele.
Alguém do lado teve de colocar disfarçadamente a mão em frente ao nariz.

Misson disse...

Oh, não! poesia...

Yane Santiago disse...

Miss.

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